Homenagem de Maria da Conceição Carvalho Barros, educadora residente em Rio Piracicaba - MG

          O gesto era o de semear. E vagarosamente, deslizavam do singelo prato negras e miúdas sementes. Hoje compreendo aquele gesto como derradeiro naquele local onde viveu e dividiu tantos momentos de calma, partilha, crença, despojamento e intimidade. Estaria naquele março tão próximo (há apenas um ano e meio) e que hoje já nos parece distante, repetindo o semear que marcou entre nós, e entre muitos, o seu dia a dia de amigo e sacerdote missionário? Sim.

          Há dois milênios, num barco, no mar da Galiléia, seu Mestre, em parábolas, já enfatizava o semear, o dispersar e o frutificar, condicionados ao caminho tomado pelo semeador. Discípulo fiel e incansável, nosso amigo percorreu muitos caminhos, esteve em nossas terras (que dádiva para nós), fez morada em nossos corações, acendeu nossa esperança, ressuscitou alegrias perdidas .Resgatou consciências adormecidas, posturas diante da vida e necessárias ao convívio humano. Acordar-nos para a superação de nossas fraquezas e de nós mesmos.

Padre Geraldo de Oliveira

          Certo é que ali onde o gesto simples, coração generoso e olhar sorridente (sorria com os olhos) fizeram deslizar das mãos santas, rumo à terra, miúdas sementes, surgiram e tem frutificado todos os anos as melancias.

          Por que melancias ? Falariam mais alto ramas apegadas ao chão, à humildade e segredos da terra, à discreção da sabedoria e depois explosão de frutos suculentos, tal como no convívio conosco, suas palavras simples e sábias, sua calma benfazeja, tanto alento nos trazia ?

          Ao toque e ao sabor desses frutos associo a simbologia das cores: o verde claro resgatando a luz do olhar e a transparência daquele ser. O vermelho intensificando o amor que embasava o convívio carinhoso e o negro das sementes, promessas de nova vida para a escuridão que muitas vezes associávamos a um futuro incerto e tantas vezes, ele nos fez sonhar, a acreditar e realizar diferente.

          E nessa efusão de verde, vida e frutos, me perco imaginando a trajetória desse amigo de volta à casa do pai. Rumo ao infinito, ao encontro de Deus, deixava atrás de si milhares de pontos de luz que se misturavam às estrelas de junho (e dos namorados), sinalizando aos amigos onde encontrá-lo com o coração e não perder o seu convívio.

          No céu de Deus e ao lado d’Ele, sorriso tranqüilo (principalmente com os olhos), a voz baixa e calma, dirige-se ao filho:

Como as minhas melancias, espero que as sementes do amor e da esperança, do agir na alegria e simplicidade, germinem e venham até nós, sinal de que estivemos e ainda estamos por lá e com eles. Minhas melancias confiaram e responderam ao carinho do semeador.

Ali, respondeu o Mestre, não houve passarinhos. O terreno não era pedregoso, o sol não queimou as raízes, os espinhos não sufocaram as plantas. Quem tem fé que acredite.

Parabéns pela sua magia. Você, Oliveira, dois mil anos depois, foi um grande semeador ! – completou o Pai.

        E a sorrir abraçaram-se os três, num passeio único pelo Reino...

Maria da Conceição Carvalho Barros
Rio Piracicaba/MG - 27.11.99

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